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Tudo sob controle Fevereiro 14, 2009

Posted by Celso Serrão in sinceridade dos outros.
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As coisas se dão nos dias de hoje muito claramente. Até parece que a sociedade nos dá pistas daquilo que está errado, para quem sabe, ajudarmos a tirá-la do buraco em que se enfiou. Digo isso porque temos aos nossos olhos, um exemplo concreto; a estrutura da internet, como meio de controle social, não é algo pensável apenas por seus críticos, mas por qualquer cidadão comum, tragado por seus modismos.

“Tragado por seus modismos”. Realmente, apenas aqueles que estão inseridos neste democrático mundo virtual, podem se dar conta de quanto o fenômeno é opressor, manipulador, covarde, agressivo, mas acima de tudo sedutor. É como o amigo Habermas diz, a Internet usa da mesma máxima que todas as demais novas tecnologias: negócio do “ame-o ou deixe” te insere e te consola no sistema, ou te isola a tal ponto que te dá remorso, faz sentir culpado. Nesta aldeia global, quem não participa dos rituais da tribo, não é considerado.

A sociedade do controle, evolução de uma sociedade da disciplina, é aquela que dilui as ordens no cotidiano das pessoas e vive das aparências. Para todos os efeitos, as pessoas têm consciência do que são, vivem suas vidas, fazem sua história e aguardam seu destino de forma natural. Mas é isso que acontece de verdade? Nesse caldeirão de faz-de-conta, o biopoder seria a solidificação desses domínios camuflados.

A Internet surgiu há algumas décadas com objetivos militares. A idéia era se comunicar de qualquer ponto do planeta, através de um sistema de códigos indecifráveis. Mas hoje nós temos os hakers, caçados porque detêm o poder de decifrar esses códigos e alterá-los, confundindo o sistema. Os hakers são, pro mundo virtual, os piratas da antiguidade e os terroristas de agora; portanto, figuras ameaçadoras, caçadas pelos observadores da sociedade ideal.

Bom, mas os hakers são marginais que não merecem ser validados em discurso algum, então não vão tomar nem dois parágrafos desse texto. O importante é dizer que, apesar de imaginar-se um fenômeno democratizante e global, a Internet exclui mais que qualquer outro meio de comunicação. Poderíamos citar o alto custo, a complexidade, a cultura como exemplos de exclusão, mas vamos nos ater ao fato de que, quando controla, a Internet exclui ainda mais.

Lembro-me que tive de chegar à universidade para ter acesso a esse mundo novo. Era revigorante dizer a todos que já tinha um e-mail próprio, discutir com os colegas novidades tecnológicas, fazer amizade com pessoas de outros estados, até mesmo de outros países, através do computador.

Difícil mesmo é quando uma onda dessa, tão rápida e voraz, te surpreende. Isso me lembra os primórdios dos programas de bate-papo, de que nunca fui muito chegado, mas logo se tornaram uma febre. O MSN Explorer, foi um dos primeiros movimentos de que tive medo e vergonha por não ter participado de cara. Chega uma hora em que, se todos os amigos têm, fica difícil você não ceder, nem que seja pra saber como é.

O Messenger é mais um daqueles programas em que você precisa de senha e contatos. Para acessá-lo o usuário é obrigado a criar uma conta de e-mail no Hotmail, um portal que oferece serviços gratuitos pela rede. Depois de ter o trabalho de criar a conta e o direito de usar o programa (baixado gratuitamente), a pessoa precisa ir atrás de contatos, porque não faz nenhum sentido ter às mãos um programa de mensagens instantâneas, se você não tem a quem endereçá-las.

Tá dominado, tá tudo dominado! – O que posso achar disso tudo é que, lambuzado de uma boa estratégia de marketing pro sítio da Microsoft, o Messenger é uma forma clara de como, através da Internet, empresas privadas e até o governo, mantêm o controle total sobre seus consumidores/ cidadãos.

O google, um sítio de buscas conhecido mundialmente, na verdade líder no quesito “ache agora”, também tem objetivos claros de controle, não só social – revelado nas intermináveis horas que um indivíduo passa refém frente a um computador – mas porque é dona de um imenso banco de dados sobre empresas e pessoas, incluindo endereços de sítios, imagens, sons e pasmem, mensagens pessoais.

Em dois anos, os portais de relacionamento, depois dos blogs, fotologs e listas de discussões (grupos pela Internet), mostraram ser a nova febre da rede. O mais famoso é o do próprio google e se chama orkut, que leva o nome de seu criador. Um cara que não tinha nada pra fazer e um belo dia, com um pouco de psicologia imaginou: por causa da Internet, as pessoas não estão mais tendo tempo para fazer amizades, conhecer novas pessoas, se relacionarem. Que tal se a gente criar um sítio pra dar uma ajudinha?

Pra entrar no orkut você precisa ter convite, e isso é realmente desestimulante, mas a curiosidade é grande que não chega ser obstáculo tão grande. Pior é preencher um longo cadastro com perguntas em inglês e aturar as milhares de vezes a mensagem de “bad server”. Como tem muita gente envolvida nisso, é natural que o orkut seja problemático nesse sentido.

No final, fazendo as devidas ressalvas, vale a pena, porque é uma coisa nova que está na sua frente, um ambiente virtual muito bem elaborado para ser explorado até suas infinitas possibilidades. A pessoa, quanto mais amigos tem, mais se sente amada, mais se sente integrante da tribo, cidadã do mundo virtual e real (porque, imagine você, amigo daquela celebridade!).

Saco das Almas boas – defensores do seu chão Fevereiro 14, 2009

Posted by Celso Serrão in sinceridade dos outros.
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É bom não esquecer nunca a história do seu Claro Ferreira da Costa, senhor de claras idéias, boa memória, bom coração e pele bem escurinha, envernizada pelo sol. Nascido e criado no Saco das Almas, município de Brejo, seu Claro nasceu em 2 de março de 1931, e adora contar as boas e más histórias que o acompanham em todos esses anos de vida.

O saco das almas foi fundado por capitão Timóteo, em 1768. As terras foram doadas ao capitão que teve três filhos: Tomaz, Inácio e Leandro da Cunha Costa. O Inácio era pai de Manoel Ferreira Lago, pai de Alexandre Ferreira lago, pai de Januária Ferreira da Costa, mãe de Claro. São seis gerações.

Capitão Timóteo foi das primeiras remessas dos negros que vieram da Angola para o Brasil, direto para o Saco das Almas, uma mata onde só tinha índios. Na época existia o Brejo de Anapurus – hoje cidade de Brejo, e o povoado data Saco das Almas. O negro velho capitão Timóteo (não sei se já veio com a família, ou construiu uma por lá) teve esses três filhos e a família se multiplicou.

Hoje moram nas oito comunidades do saco das Almas uma média de 1.200 famílias, mas tem muita gente que nasceu lá e foi s’embora, como uma filha do Seu Claro que está em Goiânia há mais de dez anos. “A juventude não tem como se segurar no Saco das almas. Ela está sendo devastado pelos grileiros”, lamenta.

Vila das almas, Vila Crioli, São Raimundo, (Brejo), Santa Cruz, Barrocão (Buriti) São José, Pitombeiras…

O saco das almas foi tomado do Alexandre Ferreira Lago, pai da Dona Januária, e Patrício da Cunha Costa, filho de uma irmã de Alexandre (a mãe e o pai do Seu Claro eram primos). Em 1823 (ou 1831) um pessoal foi pro Saco das Almas, chegaram a comprar escravos de outras regiões e pediram habitação pros “negros já mansos”. Os negros deram para esse grupo as terras e estes fundaram a Santa Cruz, comunidade localizada no saco das almas; eram o avô do Vale Rodrigues Castelo Branco e Hortêncio José Vieira, da uma fazenda chamada Faveira.

Foi esse grupo que construiu a escravidão dentro do Saco das Almas. Veio outra família, a Freitas Diniz, que se instalou num local de nome Sucuruzu, fazendo outras senzalas de escravos, comprando negros de outras regiões e faziam trabalhar em suas terras.

Segundo o Iterma o Saco das Almas tem 23.103 hectares de terra. Elas foram desapropriadas em 1975 pela Incra que dividiu as 8 comunidades em 262 lotes: os maiores (com 300, 500, 700 hectares) e mais produtivos para os brancos que vieram depois e os negros descendentes do capitão Timóteo com o resto. Ainda por cima tiveram que se separar, cinco famílias ficando de um lado, seis do outro, e assim por diante.

Os quilombolas com o tempo e com a chegada de mais gente cobiçando suas terras, tiveram que vendê-las para gaúchos, grileiros, fazendeiros. Hoje tem muita gente vivendo ali porque comprou as terras dos assentados, não lutaram por aquilo lá, não se sentem parte.

“Em 1917, no mês de junho, queimaram a casa do meu avô, pai de minha mãe, tomaram cavalo, forno, roça, destruíram tudo. Quem botou fogo foi capitão Hortêncio José Vieira, da Faveira. Ele queria tirar o velho meu avô do local, que tava perto dele. O velho não queria sair porque era dono e ele queimou tudo. Nesse ano o velho perdeu o sentido, mas viveu até 1936 (eu tinha 6 anos de idade). Ele se tacava nos ‘matos’ e a minha mãe atrás com a cabacinha d’água e a tigela de comida. Ele sentava debaixo dos paus e lá não tinha quem tirasse ele, louco, louco (assim ficou por quase vinte anos).

Em 17 de julho de 1930 (ou 31) doze famílias (entre elas a família Freitas Dinis) queimaram a casa do meu pai, deixaram meu pai na chuva com toda a família, meu pai comigo no braço, eu com 90 dias de nascido. Caiu chuva do dia 17 pro dia 18 que tudo foi levado pelas correntezas: baú, galinha… Tinha dois irmãos meus, João Ferreira da Costa e Antônio, pegaram na perna do meu pai. Pegaram um tio meu, botaram no meio do tempo, com a chuva ele inchou e rachou as pernas e dessa ele morreu.

Em 1968 eles derrubaram a minha casa, chegou o ministro da reforma agrária do dia 10 de janeiro de 1966 e mandaram avisar nós que se tivéssemos os documentos da terra era para levar para o ministro que estava na cidade de brejo. Fui eu e um irmão meu, o ministro pegou o documento do bisavô da minha mãe, com 121 anos de rubricado. O ministro perguntou de quem era: falei que era de Inácio da Cunha Costa, pai de Mamede Ferreira Lago (que mudou o nome porque serviu no quartel), pai de Alexandre, pai de Januária. Ele mandou nos fazer a declaração como herdeiro.”

Seu Claro e o irmão disseram que não iam fazer com medo de sofrer perseguições, o mesmo que seus antepassados. “O ministro disse: faça, mesmo que sofra, mas a justiça protege. Veio uma equipe do Incra e pegou as terras e botou na mão de outros, em 1968.”

“Em 75 fizeram uma mortandade, e o governado José Sarney passou a informação pro Ernesto Geisel, Presidente da República, em dezembro de 75 (veja se era esmo o presidente da época). A história contata foi que em 1968, no mês de outubro, derrubaram minha casa, e até janeiro de 69 nós nos sustentamos apenas com a quebra do coco babaçu. Quando foi em dezembro daquele ano, minha mãe saiu pro mato para quebrar o coco com uma quadrilha de mulher e menino, um irmão meu, um sobrinho e mais dois companheiros. Lá o senhor por nome Lago Dutra de Freitas e seu filho, juntaram uma quadrilha de 18 capangas, ‘arrudiaram’ o nosso grupo e fuzilaram o menino, atiraram no meu irmão que veio acudir (recebeu um tipo detrás da orelha), minha mãe se agarrou no menino e eles deixaram ela com seis golpes na cabeça ( o menor golpe, quatro dedos não cobria).”

Em todas as áreas têm descendentes de Timóteo, pelo menos um. Seu Claro fala com orgulho: “éramos seis irmãos, cinco homens e uma mulher (morreu dois irmãos homens e uma mulher). Tive 11 filhos, o segundo filho casou, morreu e deixou a mulher com 8 filhos. Os dez que ficaram todos são casados. Tenho mais de 50 netos e muitos deles já casados. Todos moram lá”.

A origem para o nome da Data Saco das Almas tem várias historias. Os irmãos dos pais de seu Claro dizem que um dos negros serviu na guerra no Rio de janeiro antes de 1822, e quando a guerra foi vencida chamaram ele e perguntaram de onde ele era. “Ele disse que vinha do Maranhão, da cidade de Brejo, do povoado de Boa Água. Pois eu vou mudar o nome desse lugar para saco das almas – disse o comandante lá – porque foi de lá que vieram as almas que defenderam o Brasil.”