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Isso é como eu me defino Outubro 15, 2009

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Clara Nunes

Composição: Clara Nunes

Quem me vê lutando
Não é sabedor
Do meu jeito brando
De falar de amor

Eu tenho uma metade de acalmar
Metade lutador
No fundo eu sou um sonhador

Eu tenho uma cidade pra cantar
Um peito cheio de versos
E as mãos de trabalhador

Quem me vê

Quem me vê sentido
É conhecedor
Do meu jeito antigo
De guardar a dor

Eu tenho uma metade no meu lar
Metade exterior
Porque também sou pecador

Eu tenho a mocidade pra gastar
Um grande amor pela vida
E a benção do Redentor

E quem quiser me acompanhar
Eu cantei pra me desabafar
E agora a dor já passou

Achados e perdidos na internet Junho 5, 2009

Posted by Celso Serrão in sobre ser sincero.
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Incrível a quantidade de bugigangas que a gente encontra com apenas algumas horinhas ociosas aqui no laboratório de informática do CCH-UFMA. E o pior, a maioria delas vem via twitter (não sabe o que é isso? azar o seu, vai ler sua revista “Veja”)

Primeiro o Rafael Rosa me vem com este link:
http://1.bp.blogspot.com/_Tdf7Ww4Td3o/SiknzkBPJrI/AAAAAAAAACc/GtV3FNetY5w/s1600-h/defesamarca.jpg

Leram, né? viram quanta coisa idiota é planejada, construída e disponibilizada assim, sem nenhum pudor? Pois é. Depois me vem A Elen Mateus com a possibilidade de um punheticídio, o primeiro da histório. E logo com o Bill, de Kill Bill:
http://g1.globo.com/Noticias/PopArte/0,,MUL1184163-7084,00-DAVID+CARRADINE+TERIA+MORRIDO+EM+ACIDENTE+DE+MASTURBACAO.html

Daí eu digitei e comecei a visitar todas as páginas do google que continham o nome “Celso Serrão”, até desenterrar um tal de Benedito Celso Serrão Borges Júnior. O cara além de ser o meu xará (coisa que eu achava impossível de acontecer), ainda é do Maranhão.

Na mesma leva encontrei vestígios do meu paleozóico blog (que não tinha nada demais, apenas alguns textos engraçados que me fizeram reviver meu primeiro porre cantando “O mundo fantástico do Uirapuru”, às 3h da manhã, no alojamento da UFPI – a única universidade do Brasil com aparadores de neve nas janelas):
http://acornetadodiabo.blig.ig.com.br/

Pode ser tudo confirmado no twitter: http://twitter.com/celsoserrao
Tem até a bendita hora em que lembro de Zefinha, durante uma aula, cantar o samba enredo da portela de 1988, em homenagem a Suzana Beckman. Ele diz assim “Suzana, a musa deste mar de lama, simplesmente a tua chama, queima o peito de quem ama…” Claro que eu acompanhei e ajudei ela a lembrar do resto da letra.

Bom, e por último, o quadro da Regina Casé no fantástico chamado “Vem com tudo!”, e que fala sobre tendências. As pessoas podem enviar vídeos do Brasil inteiro comentando sobre o que é tendência na cidade onde mora. Eu assisti uma chamada e me apaixonei por um vídeo de Maringá que pode ser visto na página do programa:
http://especiais.fantastico.globo.com/vemcomtudo/category/fala/

Acredito que dentro de alguns dias a frase “tenha discernimento” será um bordão.

veja o texto que apresenta o vídeo:

Tenha discernimento!

qua, 06/05/09
por Equipe Vem Com Tudo |
categoria Fala
| tags , , , , , , , , ,

Intelectuais muitas vezes dizem que não gostam de moda, ou pensam que estão acima das modas. Mas pegue os textos que eles escrevem. Geralmente citam outros intelectuais, os que estão na moda. Hoje a tendência é citar Zizek, Agamben, Badiou. Sartre e Foucault já estão out… (Vem Com Tudo também é cultura! E adora modas intelectuais! rsrsrsrsrs) Depois observe bem as palavras utilizadas. Hoje é difícil encontrar texto acadêmico sem “questões pontuais”, ou “operar pela lógica do mercado”, ou o verbo operar utilizado a torto e a direito de maneiras curiosíssimas. Mas o engraçado mesmo é quando essas manias intelectuais acabam vindo com tudo para a fala popular. Agora a tendência é falar difícil. Veja o caso da palavra resgate. Antes só intelectual “regastava a auto-estima”. Agora não há um dia em que alguém não esteja resgatando alguma coisa nos jornais. As pessoas falam resgate com toda a pompa, como se estivessem mandando bem, como se estivessem por dentro (isto é: na moda)! E o efeito é hilário: tudo passa a não significar nada… Este vídeo, vindo de Maringá, Paraná, é prova que o que está com tudo, agora, é a pessoa falar sem nenhum discernimento (ou com todo discernimento do mundo – como sempre, depende do ponto de vista!):

Páscoa Abril 11, 2009

Posted by Celso Serrão in sobre ser sincero.
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Há alguns anos tenho resistido a esta festa profano-religiosa do consumo e tenho me retirado a encontros estudantis onde reestabeleço as energias desprendidas no dia-a-dia. A páscoa de hoje só pode ser vista como uma festa para o comércio e as fábricas de chocolate, porque tem um apelo forte ao consumo e talvez seja tão mais apelativa que o carnaval, conhecida como a festa da carne. Ah-ah, aqui estamos na mesma festa da carne, só que da carne de peixe – uma carne magra – e de preferência do bacalhau, que é chique/nobre porque vem da Europa.

Esqueceram o Jesus Cristinho mortinho na cruz. As vagas lembranças que tenho são dos filmes repetitivo das sessões da tarde da sexta-feira da paixão. Esse ano batemos um recorde: globo, sbt e record exibiram filmes para nos lembrar que apesar dos ovos de páscoa, o real sentido da data é a reflexão. Veja como os fariseus forma cruéis! sintam pena dele, do nosso Senhor! Neste Estado laico das coisas, temos que ser católicos pelo menos duas vezes ao ano. No natal tem mais…

Bom, como eu ia falando, nesses últimos anos tenho resistido, mas desta vez não. Tudo foi diferente, quer dizer, tudo foi igual ao que todo mundo faz sempre. Ceia em família, bacalhau, ovo de páscoa, caixa de bombom e nada de carne! Também digo que este ano foi diferente porque pela primeira vez passo uma páscoa intolerante ao leite.

Meu médico me deu a notícia em meados do ano passado. Esta doença de rico que tem contaminado classe média e classe média baixa adentro tem me feito rever uma série de coisas na minha vida que eu não tava acostumado. Estou me sentindo um velho antes dos 26 anos, é uma situação difícil. Fazer voto de castidade ao queijo chedder, ao catupiry (que até bem pouco tempo eu pensava ser uma espécie de camarão), o parmesão, o requeijão, o leite condensado… o chocolate.

Apesar de tudo quero deixar bem claro que não sou a favor dessa opção autoritária de meu sistema digestório em relação ao leite, sou completamente contra qualquer tipo de intolerância, sou da paz! Chocolate branco: estamos juntos!

Um carnaval dos carnavais Março 5, 2009

Posted by Celso Serrão in sobre ser sincero.
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Melhor do que passar o carnaval do jeito que você gosta é, na minha opinião, ir atrás de algo que você não sabe o que é. Foi o que me aconteceu neste mês de fevereiro. A meta era chegar até o carnaval carioca, mas dei uma incrementada na coisa e resolvi fazer duas paradas a mais: uma em Sampa, quase que forçadamente, e outra em Brasília – afinal de contas, as energias negativas absorvidas ao longo dos cinco dias de festa pagã precisavam ser descarregadas em algum lugar. Achei melhor procurar um pronto socorro espiritual.

Saí de casa no dia 17 de fevereiro sem nenhuma idéia do que fazer em 15 dias fora. Tinha apenas a esperança de assistir os desfiles, embora o ânimo venha diminuindo ao longo dos anos. Ah, e tinha uma novidade, pela primeira vez ia desfilar numa escola…

Em Sampa a ficha caiu logo no primeiro dia. O que fazer aqui nesta cidade grande, cheia de gente fugindo da folia? Aproveitei então para matar saudades da Hanna, conversamos muito, saímos juntos todos os dias. Conheci meninas bacanas na república em que ela mora. Fui visitar o Museu do Ipiranga, me desapontei com a Santa Efigênia, conheci o Memorial da América Latina e o sambódromo, até assisti o desfile de lá. Estava tão ansioso para ver a Nenê de Vila Matilde, mas acabei não vendo, fui obrigado a sair mais cedo porque tinha comprado a passagem naquele mesmo dia pro Rio, às 9h da manhã. Eram 7h e eu ainda estava no Tietê. Precisava ir na Vila Mariana, pegar as coisas e voltar ao Tietê para embarcar na Itapemirim.

Um longo engarrafamento me fez chegar às 6h da tarde de sábado no Rio. Em cima da hora do desfile na Inocentes de Belford Roxo. A segunda frustração foi não ter encontrado meus amigos, a fantasia não chegar na hora e a escola por esse e por outros motivos quase ter sido rebaixada. Mas eu levantei a cabeça e continuei. Assisti o desfile de sábado, domingo e terça. Na segunda vi pela TV: o salgueiro campeão! Portela, mangueira e viradouro me fizeram dormir… como uma pedra. Outra frustração foi ver aquela aberração de desfile que a mocidade apresentou fazendo dela a rebaixada moral do carnaval 2009. Como todos sabem a verdadeira rebaixada foi o Império, que nõa tava tão mal assim.

Em Brasília, além de rever os amigos, a vontade mesmo era de conhecer o Templo mãe do Amanhecer. Terceira frustração: ter perdido a benção do pai seta branca npo domingo. Culpa da Elaine, mas tudo bem, não faltarão outras oportunidades.

Depois conto mais…

Pedacinhos de salsicha Fevereiro 14, 2009

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Passei muitos fins de ano assistindo o show da virada. Ajudei as pesquisas confirmarem às emissoras de televisão que há vida fora da orla marítima no reveillon. “Nem todos estão em Copacabana esperando o ano novo”, comenta um diretor, “dever haver alguém sem a mínima vontade de ver os fogos de artifícios pipocando no céu, deve haver alguém louco pra ver os fogos pela tv”, aquela festa linda que é a confraternização entre as pessoas trocando votos de felicidades, amor e paz: esse alguém foi, durante muitos anos, eu, sentado no meu sofá, com um controle remoto na mão.

Em 2005 resolvi mudar. Fui pra praia, vi os fogos bem de perto e me espantei com cada um deles; vislumbrei as cascatas, os coloridos e os barulhentos. Briguei com os amigos e não fiquei até o final da festa – não antes de enfrentar uma enorme fila do ônibus. Cheguei em casa às dez da manhã porque inocentemente acreditei que as pessoas eram iguais a mim e continuavam vendo os fogos pela tv.

Este ano o pessoal, acreditando que pudéssemos ter uma briga ainda maior, resolveu fazer uma confraternização na casa de uma de nossas amigas. Ou seja, a bebida seria restrita e os mais exaltados dariam um showzinho que ficaria pro resto de nossas vidas nas conversas de “sabe aquela vez?…” Mas no meio da noite, depois da meia-noite, não resistimos e fomos beber na areia da praia, já deserta, quase amanhecida.

Vodka nunca foi o meu forte. Lá pelas três eu me virei pro pessoal e comecei a gargarejar com se tivesse virado um zumbi – isso o que me contaram. Falaram também um monte de outras coisas, que não acreditei muito, mas eles insistem até hoje. Do pouco que lembro, lembro da hora em que sentados num barzinho, Saritinha olhava pra mim com um ar de nojo, como se eu tivesse dado língua para ela.

Dei língua, claro, mas isso depois de ela me dar a maior bronca porque “eu não mastigava muito bem os alimentos”. Sarita sempre foi de alisar a comida, eu sempre fui mais direto com ela (a comida). Tinha medo que as comidas pudessem falar com a gente e nos fazer refletir sobre como éramos cruéis com elas, como em “A família dinossauro”.

Quando Saritinha falou que “eu não mastigava muito bem os alimentos”, olhei pra baixo num impulso [ia vomitar de novo]. Achei engraçada a cena – era como se estivesse colocando para fora tudo o que de ruim o ano passado me trouxe, e como se olhasse para este novo ano, limpo, renovado. Era a filosofia chegando nas minhas veias, depois do álcool ter uma assentadinha.

Mas é verdade. Eu não mastigo muito bem os alimentos, ou então o meu estômago auto-reverse faz o destrabalho de reconstituí-la e trazê-la de volta à tona assim que tiver uma boa oportunidade. E ter Sarita como testemunha daquilo foi o auge para o meu estômago.

Certo, eu já estava bêbado demais…

Ninguém será sempre o dragão nem o guerreiro Fevereiro 14, 2009

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Antônio das Mortes, personagem síntese da obra de Glauber Rocha, inicia sua trajetória de caçador de cangaceiros e beatos em “Deus e o diabo na terra do sol”, filme de 1964. Em uma espécie de faroeste americano adaptado para o árido sertão brasileiro, onde os cabras mais valentes estão sempre marcados para morrer, a personagem acabou virando um ícone do cinema nacional já neste primeiro filme do cineasta.

Homem de muitas polêmicas pelo tom das suas obras, por despertar nas pessoas uma espécie de inveja incontida, por receber numerosas críticas e o mesmo número de elogios, Glauber Rocha deixou sua marca através de obras de cunho nacionalista, novas técnicas cinematográficas, um estilo próprio que faz dele – mesmo após 25 anos de sua morte – o maior cineasta brasileiro de todos os tempos.

Quando filmou “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, em 68, à beira do AI-5, nos trouxe de volta este Antônio das Mortes, agora como que arrependido de seus pecados, numa narrativa cheia de alegorias. As cenas mudas (às vezes o problema não é só do som, péssimo, diga-se de passagem) e demoradas, os simbolismos de santos e anjos as multidões entoando cânticos, coronéis que personificam o mal, heróis incorporados, são chocantes e de certo momento incomodam a platéia.

Os quadros parecem teatro e a música lembra repente ou poesia de cordel. Muito confuso? O próprio Glauber pode explicar então: “o dragão é inicialmente Antonio das Mortes, assim como São Jorge é o cangaceiro. Depois, o verdadeiro dragão é o latifundiário, enquanto o Santo Guerreiro passa a ser o professor quando pega as armas do cangaceiro e de Antonio das Mortes. Em suma, queria dizer que tais papéis sociais não são eternos e imóveis, e que tais componentes de agrupamentos sociais solidamente conservadores, ou reacionários, ou cúmplices do poder, podem mudar e contribuir para mudar. Basta que entendam onde está o verdadeiro dragão”.

Dragão da maldade nos conta uma história simples, apesar de tudo. Um dia, numa cidadezinha chamada Jardim das Piranhas aparece um cangaceiro que se apresenta como a reencarnação de Lampião. Seu nome é Coirana. Anos depois de ter matado Corisco, Antônio das Mortes vai à cidade para ver o cangaceiro. Não vem por dinheiro. Quer apenas comprovar se é verdade mesmo.

Embora seu trabalho fosse pago, Antônio das Mortes sentia ao mesmo tempo que era necessário livrar o mundo daqueles males e ninguém melhor do que ele poderia encarnar o justiceiro ajudado por forças superiores. Só assim justifica seu trabalho. Incompreendido, contraditório, mas acima de tudo um homem a figura de Antônio das Mortes atraiu sobre si as atenções gerais. A força desse personagem não escapou aos olhos dos críticos da época e do público. Ainda hoje encanta os dois espectadores.

No duelo entre o dragão da maldade contra o santo guerreiro, a história traz outros personagens que vão povoando a cena. Entre eles, um professor desiludido e sem esperanças; um coronel com delírios de grandeza, voltado para um passado distante; um delegado com ambições políticas; e uma mulher, Laura, vivendo uma trágica solidão. Todos são envolvidos na ação dirigida por Antônio e seus contraditórios conceitos de moral e justiça.

Gentileza gera perfeição, violência não Fevereiro 14, 2009

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Seguramente muitos do Rio se lembram daquela figura singular de cabelos longos, barbas brancas, vestindo uma bata alvíssima com apliques cheios de mensagens, um estandarte na mão com muitos dizeres em vermelho, que a partir dos inícios de 1970 até a sua morte em 1996 percorria toda a cidade, viajava nas barcas Rio-Niterói, entrava nos trens e ônibus para fazer a sua pregação. A partir de 1980 encheu as 55 pilastras do viaduto do Caju, perto da Rodoviária, com inscrições em verde-amarelo propondo sua crítica do mundo e sua alternativa ao mal-estar de nossa civilização.

Não era louco como parecia, mas um profeta da têmpera dos profetas bíblicos, como Amós ou Oséias.

Como todo profeta, sentiu também ele um chamamento divino que veio através de um acontecimento de grande densidade trágica: o incêndio do circo norte-americano em Niterói, no dia 17 de dezembro de 1961, no qual foram calcinadas cerca de 400 pessoas. Era um empresário de transporte de cargas em Guadalupe e sentiu-se chamado para ser o consolador das famílias dessas vítimas. Deixou tudo para trás, tomou um de seus caminhões e colocou sobre ele duas pipas de 100 litros de vinho e, lá junto às barcas, em Niterói, distribuía-o em pequenos copos de plástico, dizendo: ”Quem quiser tomar vinho, não precisa pagar nada, é só pedir por gentileza, é só dizer agradecido”.

De José da Trino, esse era seu nome, começou a se chamar José Agradecido ou Profeta Gentileza. Interpretou a queima do circo como um metáfora da queima do mundo assim como está organizado, como um circo, pelo ”capeta-capital, que vende tudo, destrói tudo, destruindo a própria humanidade”. Segundo ele, devemos construir outro mundo a partir da gentileza, o que ele fez em miniatura, transformando o local num belíssimo jardim, chamado ”Paraíso Gentileza”. O quarto aplique de sua bata dizia: ”Gentileza é o remédio de todos os males, amor e liberdade”. E fundamentava assim: ”Deus-Pai é Gentileza que gera o Filho por Gentileza. Por isso, Gentileza gera Gentileza”. Ensinava com insistência: em lugar de ”muito obrigado”, devemos dizer ”agradecido”, e ao invés de ”por favor”, devemos usar ”por gentileza” ,porque ninguém é obrigado a nada e devemos ser gentis uns para com os outros e relacionarmo-nos por amor e não por favor.

Não é exatamente disso que o Rio de Janeiro está precisando? Já dissemos nesta coluna que, junto com o princípio de geometria, a gentileza funda um princípio civilizatório, princípio descurado pela modernidade e hoje de extrema importância se quisermos humanizar as relações demasiadamente funcionais e marcadas pela violência.

A crítica da modernidade não é monopólio dos mestres do pensamento acadêmico, como Freud com seu O mal estar da civilização ou a Escola de Frankfurt, Horkheimer com seu O eclipse da razão e Habermas com o seu Conhecimento e interesse ou mesmo toda a produção filosófica do Heidegger tardio. O Profeta Gentileza, representante do pensamento popular e cordial, chegou à mesma conclusão que aqueles mestres. Mas foi mais certeiro que eles ao propor a alternativa: a gentileza como irradiação do cuidado e da ternura essencial. Esse paradigma tem mais chance de nos humanizar do que aquele que ardeu no circo de Niterói: o espírito de geometria, o saber como poder e o poder como dominação sobre os outros e a natureza.

Já está pronta a restauração dos escritos do profeta Gentileza nas pilastras do viaduto de acesso às avenidas Perimetral e Francisco Bicalho, junto ao início da Avenida Brasil. Fruto da parceria entre a Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal Fluminense, o Consórcio Novo Rio, a Socicam, a Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro e as empresas Ponto de Bala, Fosroc Reax Tintas, GP Andaimes e Wherever proteção de monumentos, o projeto Rio com Gentileza começou a limpar as pilastras em janeiro de 1999 e concluiu a restauração das inscrições em maio de 2000.

Num total de 56 escritos, os murais artísticos do viaduto foram pintados durante a década de oitenta por José Datrino, o profeta Gentileza, e nos últimos anos já estavam consideravelmente desgastados. Inicialmente a equipe de restauração dos escritos estudou os elementos gráficos específicos da linguagem de Gentileza. Posteriormente os murais foram lavados para se remover a camada de cal que existia sobre a tinta original e repintados com tinta acrílica. Por fim foi aplicada uma substância composta de poliuretano para proteger as obras.

Agora, todas as pessoas que chegarem à cidade do Rio de Janeiro pela Avenida Brasil ou pela Ponte Rio-Niterói e passarem ao lado do viaduto que leva ao Centro e ao Canal do Mangue poderão novamente ler em diversos painéis que, dentre outras coisas,

… e que todos são bem-vindos!

(Leonardo Boff é professor da Uerj)

Na passarela, o carnaval Fevereiro 14, 2009

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“O carnaval é a maior caricatura, na folia o povo esquece a amargura”, esquece que tá chovendo muito nessa época, mas mesmo assim sai, “com jeito” sai. Com 9 milhões então, aí é que sai mesmo. Vamos pegar esse dinheiro e comprar bastante maizena para tacar na cara dos outros e deixemos um pouco de lado a fome que mata. Vamos matar o tédio e vamos morrer de rir.

O povo é criativo e “não deixa o samba morrer”. Esse samba pode até vir um pouco fora do ritmo, ou embalado nas brigas das gangues que vão “atrás do trio elétrico”, mas “ainda tem muito pra dar”. O “samba agoniza, mas não morre”.

Olho vivo em quem vem por trás, com a mão saliente pra cima do nosso bolso. Se for uma mulher gostosa, a mão que não é boba nem nada, dá uma de mão boba. “Pode me chamar de cafajeste, eu sou, e quem não é?” Se a turma disser que é moda, eu não posso fazer nada. Finjo que não estou nem aí, e [malandro que é malandro] vou reivindicar o que é meu.

No bloco dos marajás, a história é velha, “dá cá o meu” e “toma lá dá cá” são enredos repetidos que a galera lá de cima não cansa de cantar. Um samba do crioulo doido onde, “quem tem muito quer ter mais” e a esperteza é o quesito pra desfilar de fantasia. Eles de camarote olhando a gente se esbaldando pelas ruas da cidade ao som de marchinhas antigas do tipo “ei, você aí, me dá um dinheiro aí” ou “mamãe eu quero, mamãe eu quero”. Ninguém é de ninguém!

Vem aí o bloco de sujos da galera que rala o ano inteiro e nem pode se divertir nessa época, porque precisa trabalha pra descolar uma grana.

Manifesto do “copiar-colar” Fevereiro 14, 2009

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Pensamos que teríamos pouco trabalho, que íamos mandar e-mails implorando para que cada associado da lista do Enecom inscrevesse um vídeo, suplicando para os CA’s e DA’s darem uma forcinha e choramingando aos regionais e coletivos: “mandem alguma coisa, por favor!”

Mas não precisou de nada disso, não teve desespero. Pelo contrário, só tivemos problemas mesmo em catalogar os milhares de vídeos inscritos. Ainda contamos com boa dose de paciência para acalmar os ânimos dos autores preocupadíssimos em confirmar a inscrição e, lógico, ansiosos pelos seus 15 minutos de fama: o dia em que os 1.000 estudantes de comunicação que conseguiram chegar a Maceió apreciarão suas obras.

Alguns são poéticos, outros melodramáticos, uns meio toscos, outros muito bem acabados. Cada um com um pouco de cada coisa, várias culturas vão sendo jogadas no caldeirão que é o Curtacom. Todos, porém, preservando a beleza do “copiar e colar”, porque nada se cria.

No meio de tantas inscrições, restou aos organizadores selecionar apenas a nata da produção nacional dos estudantes espalhados pelo país. Na sistematização também não faltou um ctrl+c ctrl+v. Enfim, foi duro julgar, mas, eis os classificados:

(direto do túnel do tempo)

Gentileza gera gentileza Fevereiro 14, 2009

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gentileza gera gentileza“Este é o profeta Gentileza que gera gentileza, amor, mostra a maldade da humanidade”, apresenta-se na pilastra de número 14 aquele que nasceu na cidade paulista de Cafelândia, com o nome de José Datrino. A idéia de um mundo regido pela gentileza foi pregada por Datrino desde que, em dezembro de 1961, abandonou família e profissão para assumir uma nova identidade.

Consolar os parentes das vítimas do incêndio de um circo em Niterói, mudar-se para o local da tragédia e semear ali um jardim de flores foi sua primeira missão. Como autêntica fênix que renasce das cinzas, Gentileza começou ali seus 35 anos de peregrinação. “O valor fundamental deste homem que ressurge é a gentileza. É ela que irá calçar suas relações”, diz Leonardo Guelman, coordenador do projeto Rio com Gentileza.

Com a ameaça de guerra no ar, as profecias sobre o fim do mundo começam a ser lembradas. Ressurgem no imaginário popular figuras destrutivas como a do “anticristo”, que levará a humanidade para um caminho sem volta. Mas também é nesse mundo violento e caótico, que sobrevivem, em placas de concreto urbanas, as palavras de paz do “Profeta Gentileza”.

Toda a mensagem do homem, que andava pelas ruas de túnica e estandarte na mão, está estampada nas pilastras do Viaduto do Caju, na Avenida Brasil, como um livro aberto. É um local de passagem, entre o Caju e a Rodoviária Novo Rio, árido e cinzento, onde os dizeres são vistos por quem anda na velocidade dos carros. “Ele escolheu a Rodoviária porque esta é a maior porta de entrada do povo na cidade. São centenas de pessoas circulando por aqui por dia”, diz o diretor Regional da Socicam, empresa que administra a Rodoviária Novo Rio.

Profeta escolheu o espaço urbano para registrar mensagens

Algumas das 55 páginas-pilastras de seu livro urbano, escrito entre 1986 e 1991, impressionam pela atualidade. Mesmo antes das guerras religiosas, da intolerância e do fanatismo chegarem onde chegou, o profeta já anunciava um princípio religioso calcado na paz e na fraternidade. “Religião, todas as nações como uma só família. Todos morando em uma só casa” são trechos retirados de algumas das placas de concreto, espalhadas no viaduto. Mais adiante, em traços firmes e cores brasileiras lê-se: “gentileza gera gentileza”.

O profeta alerta sobre as ameaças do mundo contemporâneo: “Agora o capeta do homem, que é o capitalismo, é que vende tudo, destrói tudo, destruindo a própria humanidade”. Mas aponta uma alternativa: “gentileza gera amor e paz”.

José Datrino, verdadeiro nome do profeta, começou a pregar essas mensagens após um incêndio que destruiu um circo em Niterói, em 1961. O acidente, que matou inúmeras pessoas, marcou tão profundamente o profeta que o fez abandonar tudo: empresa, mulher e filhos. Inicialmente visto como louco, ele logo conquistou o respeito de todos. “Ficou transtornado,

Houve um homem enviado ao Rio por Deus. Seu nome era José da Trino, chamado de Profeta Gentileza (1917-1996). Por mais de vinte anos circulava pela cidade com sua bata branca cheia de apliques e com seu estandarte, pregava nas praças e colocava-se nas barcas entre Rio e Niterói anunciando sem cansar:”Gentileza gera Gentileza”. Só com Gentileza, dizia, superamos a violência que se deriva do “capeta-capital”. Inscreveu seus ensinamentos ligados à gentileza em 55 pilastras do viaduto do Caju, à entrada da cidade, recuperados sob a orientação do Prof. Leonardo Guelman que lhe dedicou um rigoroso trabalho acadêmico, acompanhado de video e um belíssimo um CD-ROM com o título Universo Gentileza: a gênese de um mito contemporâneo.

Durante a Eco-92, o Profeta Gentileza colocava-se estrategicamente no lugar por onde passavam os representantes dos povos e incitava-os a viverem a Gentileza e a aplicarem Gentileza em toda a Terra.

Sua mensagem é de extrema urgência no Rio dos dias atuais. Não bastam os patronos que temos, São Sebastião e São Jorge. Eles ainda usam símbolos de violência, a flecha no corpo e a lança contra o dragão. Precisamos de um símbolo puro como o Profeta Gentileza. Voltaremos ainda a ele.